Entrevista: Babi Dewet

Autora de "Sábado à Noite", uma das mais famosas fics do mundo das fanfics que se tornou livro.

All About Fics: Toda autora tem alguma história infantil, onde passa por alguma experiência que justifica o motivo dela escrever tão bem, ou ter uma paixão incondicional pela leitura e escrita. Como foi que nasceu todo esse dom que você tem? Você tem alguma história para nos contar?
Babi Dewet: Obrigada pelo elogio, primeiro de tudo! Desde que me lembro eu gosto de livros, então acho que foi uma coisa natural pra mim. Quando pequena eu amava as histórias do Rei Arthur e da Távola Redonda e ficava contando e recontando e relendo... às vezes queria escrever minha própria versão e então tive que aprender como fazer isso. Eu criava peças de teatro com meus amigos e obrigava todo mundo a participar - nossos pais quem pagavam a entrada pra assistir - e era genial, porque eu escrevia os roteiros e dirigia tudo com apenas 8 anos. Minha irmã me odeia até hoje por só dar papel pequeno pra ela nessa época, mas ela só tinha 7 anos!

AAF: SAN é a sua história mais famosa. E também posso arriscar dizer ser uma das mais famosas no mundo das fanfics. Como ela nasceu? De onde veio a inspiração para criá-la? Houve em algum momento, pessoas que influenciaram ou contribuiram para o desenvolvimento dela?
Babi: Obrigada, eu tenho lutado bastante pra SAN ficar conhecida. Apesar da época em que foi criada e escrita, é um grande clichê romântico - que eu adoro e sou apaixonada. Um dia conversando com uma amiga - a gente ficava imaginando cenas de histórias que ainda não existiam - eu pensei em um grupo de jovens num baile de colégio, alguns garotos no palco tocando mascarados e uma menina de vestido rosa na multidão. Dai então o menino saia do palco e andava até ela, romanticamente, como se tudo aquilo fosse só pros dois. De cara eu queria construir os personagens e criar um background pra essa cena e, como na época estávamos montando o site do McFLY, fez sentido fazer sobre eles. E foi uma delícia! Eles me deram inspiração pros personagens, com pitadas dos meus amigos, e suas músicas me ajudaram a roteirizar a história.

AAF: Criar um livro é algo que muitos querem e poucos conseguem. Entrei em contato com a autora de um livro esses dias e ela me explicou que para conseguir lançar o primeiro livro dela, ela recebeu diversos 'não' das editoras. Foi o que aconteceu com você? Ou você não teve dificuldades com essa fase?
Babi: Eu não passei por essa fase ainda porque não procurei editoras, eu arrumei o dinheiro e fui atrás de uma gráfica para lançar sozinha. Foi bem complicado, mas era algo que eu queria fazer, uma experiência que eu queria passar. Eu vou procurar editora para SAN, estou fazendo uma pesquisa legal, mas ainda não passei por essa fase.

AAF: Quando foi que você pensou que estava na hora de fazer de SAN, um livro?
Babi: Foi em 2009, perdida sobre o que fazer com a minha vida e cheia de questionamentos quanto às minhas capacidades profissionais, que li os comentários dos leitores da fanfic e muitos elogiando e dizendo que comprariam se fosse um livro. Dai veio a idéia e eu corri pra colocar em prática, pra ver se era algo pra mim, algo pro meu mundo!

AAF: Para dar um passo como esse, é preciso de muito apoio e compreensão de várias pessoas, afinal, lançar um livro não é apenas: "Oi, quero ter um livro, então vou pegar qualquer história minha e pronto". Você teve muito suporte das suas leitoras para que lançasse o seu livro?
Babi: Muito! Demais, todos os leitores foram incríveis e todo mundo me apoiou muito! Existe sempre alguém que te critica, que diz que não vai conseguir e já coloca defeito, mas as pessoas que me ajudaram e deram suporte, as que ficaram felizes comigo e com o andamento de uma história que começou como fanfic, foram maiores.

AAF: Como foi o processo para lançar o seu livro? A quem você foi recorrer assim que decidiu que queria ele? Conte-nos as dificuldades, os prazeres, tudo!
Babi: Quando decidi que faria de SAN um livro eu conversei primeiro com a minha mãe pra saber se teria o apoio dela. Depois disso falei com meus amigos e, com a ajuda de todo mundo, comecei a pesquisar gráficas. É um pouco complicado, um trabalho empresarial mesmo, mas vale a pena. Meus amigos me ajudaram revisando, editando, desenhando a capa e me dando dicas. Foi uma jornada!

AAF: Por que SAN foi a escolhida? Você já a criara com a intenção de fazer algo mais grandioso com ela?
Babi: Eu não sei mesmo, eu sempre quis lançar um livro meu, mas não sabia que seria com SAN. A história já estava finalizada, já tinha alguns leitores e era um pouco mais seguro do que me lançar com algo que ainda não saberia a reação de alguém. Eu tenho milhares de histórias, mas nenhuma delas realmente com um final. Eu sou muito ansiosa então cada vez que tenho uma idéia surge um início - e depois eu acabo deixando de lado e fica sem final.

AAF: Como foi o lançamento do livro? As vendas andam indo bem?
Babi: O lançamento no Rio de Janeiro foi super íntimo e legal. Depois levei pra Bienal do Livro em SP e foi o maior sucesso. Vendi 200 cópias independentes lá e isso foi quase um recorde, pelo que conversei com o pessoal da área. Foi demais, todo mundo me dando o maior apoio! As vendas estão ótimas, em menos de um ano eu vendi sozinha 600 cópias! Às vezes nem eu consigo acreditar!

AAF: Da onde você tira inspiração para suas histórias? Para você, o que chama a atenção nelas para que sejam tão reconhecidas pelas leitoras, porque hoje em dia, por exemplo, se nós nunca lemos SAN, pelo menos já ouvimos falar!
Babi: Eu não sei de onde exatamente. Adoro ler, inclusive romances sobrenaturais, e ver seriados de TV. Acho que isso basicamente me inspira. Música também, sempre acabo criando um clipe pro que estou ouvindo e isso pode ser uma futura história.

AAF: Teve alguma cena especial que você curtiu escrever? Por quê?
Babi: Algumas! A cena do baile final foi um prazer enorme, já que deu origem à história. Eu adoro diálogos, então pra mim são sempre deliciosos de escrever!

AAF: Existe algum personagem que você se identifica? Ou algum que você baseou em si própria?
Babi: Nada baseado em mim, mas tem um pouco de muita gente que conheci. A Amanda é bem adolescente, embora muita gente reclame dela. Todo mundo passa por uma época meio boba.

AAF: Você pensa em publicar outros livros além de SAN?
Babi: Claro! Muitos livros!

AAF: SAN foi escrita para as leitoras se divertirem com o McFly de forma interativa, quando você decidiu que iria lançar o seu livro, houve aquele momento de incerteza onde você pensava se as leitoras iriam aceitar algo fixo?
Babi: Foi realmente uma das dificuldades que tive. Conheço bem as fãs de McFLY e as leitoras da fanfic e eu tinha medo da aceitação delas depois do livro pronto. Mas eu acabei ganhando uma coragem que eu normalmente não tenho e decidi investir nisso. Eu acreditei que, se criasse algo realmente legal, bem construído e consistente, as pessoas iriam gostar. Sei que os leitores lembram de suas versões da fanfic quando lêem e acho que isso também faz parte! SAN sempre vai ser uma boa lembrança da sua adolescência!

AAF: Qual a sensação de ver uma fanfic se tornando em um livro? Pegar o livro, lê-lo inteiro, ver que é real e não está apenas na tela de seu computador, mas sim em livrarias?
Babi: É muito legal, acho que é uma das coisas que não aconteciam antigamente e que agora são totalmente possíveis. Eu fico muito feliz de ver que hoje em dia muitas fanfics estão começando a tomar rumos literários, porque sei que não tive quem me inspirasse sobre isso!

AAF: Depois que você lançou o seu livro, diversas autoras de fanfics tem a vontade de lançarem seus próprios livros. Para você, para elas darem esse passo maior como você fez, é preciso o quê? Acha que é possível delas fazerem isso também? Tem algumas dicas a dar?
Babi: Sempre é possível, você só precisa ser coerente e ser cara de pau. Por exemplo, se sua fanfic tem o nome em inglês e você for lançar um livro no Brasil, mude o título para um em português. Isso vai atrair mais e não vai ficar com cara de não profissional. Também é legal trabalhar BEM os personagens para que os recrie e não fique com cara de repetitivo. Precisa tomar cuidado com isso. Direitos Autorais também precisam ser respeitados!

AAF: Com tudo isso que te aconteceu (publicação do seu livro e vários eventos), você ainda tem tempo de sentar em frente ao computador e ler uma fanfic nova?
Babi: Não tenho tido tempo e isso me deixa chateada! Eu trabalho com um curso que tenho, dou aulas, cuido da parte administrativa, tenho meu site, recebo livros para resenhas e ainda preciso da vida social, fora toda a parte de mexer com a divulgação de SAN, sua venda, etc. Fico triste do dia não ter 34 horas ou algo assim!

AAF: São muitas as meninas que se transformam em autoras devido à vontade de ter a fama. Qual a sua opinião sobre essas meninas?
Babi: Bom, fama não é nada se você não tiver talento, maturidade, pessoas que confie à sua volta, pé no chão, etc. Muita gente faz qualquer coisa pela fama e, em certo momento, a vida delas vai parar de dar certo. Todo mundo tem um limite. Mas todo mundo que escreve quer, realmente, ser reconhecido, porque faz parte do trabalho. Faz parte de qualquer trabalho, na verdade. Você só não pode ter isso como único motivo.

AAF: Já deparamos com diversas autoras que, ao terem suas fanfics mais reconhecidas, tornam-se pessoas antipáticas de se lidar. O que você faz para manter sua relação autora-leitora? Qual a dica que você dá para que as autoras mantenham seus modos?
Babi: Também já vi isso e eu lamento demais quando acontece. Sei que às vezes é dificil manter o ritmo, manter o trabalho, etc, mas precisa tomar cuidado. Ser famoso ou ter reconhecimento não é motivo para ser melhor do que ninguém. Eu não sou uma pessoa muito social - sou daquelas que adora ficar em casa, não tenho MSN, etc - mas eu faço o que posso. Acho que faz parte manter essa relação com seus leitores. Eu respondo mais de 50 emails por dia e, se caso eu não responder algúem, é porque alguma coisa aconteceu!

AAF: Ao ouvir algum comentário ruim, é inevitável que a autora fique um pouco mal, querendo sempre saber o motivo que levou àquela pessoa a fazer tal comentário. Como você lida com as más críticas sobre suas histórias ou sobre você?
Babi: Já teve uma época em que eu realmente ficava chateada com comentários ruins. Alguém fala que você é metido ou algo sem nem te conhecer é muito esquisito - além de agressivo. Eu procurava as pessoas, tentava conversar, mas vi que não adianta - algumas pessoas vão detestar você pelo simples fato de quererem estar no seu lugar. Isso funciona em tudo na vida, na escola, na família, com os amigos e conhecidos. Eu nunca dei motivo pra ninguém e eu sei que não sou uma pessoa ruim. Hoje em dia eu sou mais tranquila, eu agradeço críticas e ofensas, por pior que seja. A gente aprende com isso, claro. Eu realmente me espantei por ainda não ter lido nenhuma resenha ruim sobre SAN - e eu procuro, juro! - mas já tentei responder comentários sobre problemas no livro porque isso é importante nessa relação com o leitor. Algumas pessoas lêem seu livro pensando em achar algo ruim - e se elas acham, algumas fazem disso um circo. Eu fico bem com isso, é bom saber onde melhorar!

AAF: Na sua opinião, a partir do momento que suas leitoras se fixaram em SAN, você acha que terá dificuldade em surpreendê-las como aconteceu com essa história, em outras histórias?
Babi: Eu espero que não, apesar de saber que é possível. É um desafio, claro, mas eu gosto de tentar!

AAF: Para finalizar, todas as entrevistas que dou, peço para que as autoras mandem um recado para suas leitoras e que dêem dicas em como escrever e o que é preciso focar.
Babi: Quero agradecer a oportunidade, o espaço e as perguntas, que foram super legais de responder! As dicas que eu tenho pra dar? Fique atenta às críticas e faça tudo porque gosta. Às vezes o durante, a experiência, são mais válidas e mais recompensadas do que o final.

Super beijocas,
Babi Dewet

Publicada em: 01/07/2011
Entrevista por: Natashia

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